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Rosine e Robert Lefort partem do princípio de que a fonte do discurso psicanalítico se encontra na articulação fundamental entre o dia a dia das sessões e a lógica, pois a pura descrição clinica, por mais rica que fosse, correria o risco de se obturar em uma descrição fenomenológica, psicológica e mesmo tautológica. Eles sempre se dispuseram a responder rigorosamente por esta articulação na transmissão da psicanálise lacaniana com crianças e no trabalho de fazer avançar a psicanálise.
Eles fundaram e coordenaram, em Paris, desde 1982, junto com Eric Laurent, Judith Miller e Jacques-Alain Miller o CEREDA, (Centre de Recherche sur l’Enfant dans le Discours Analytique) e depois a Nova Rede CEREDA que se encarregou de reunir psicanalistas, em todo o mundo, que desejavam ordenar sua clínica numa relação de transferência de trabalho com o Campo Freudiano e com a Escola de Lacan.

Diogo Calife – artista.
Rosine Lefort foi, dentre os alunos de Lacan, uma das poucas escolhidas para falar em seu Seminário. Ela, em um esforço conjunto com seu marido Robert Lefort, seguiu a consígnia que lhe deu Lacan, isto é, sua instrução estrita, de escrever sobre os casos que ela atendera na clínica Parent de Rosan, dirigida por Jenny Aubry. Ele lhe afirmara, nessa época, que ela ali não poderia ter se enganado. De que se tratava? Lacan marcava assim que ela se encontrava em uma posição tal em sua análise, que seu saber sobre sua própria posição subjetiva lhe abria de forma inegável a via de intervir com essas crianças.
Em uma entrevista a Judith Miller ela marca e desvela a travessia em sua análise de sua posição de objeto dejeto, posição que ocupara por longo tempo para sua família. Ela trabalha assim as vizinhanças de sua posição com o que se desenhava como da ordem da falta e do buraco, em jogo na sua análise. Tratava-se, como lhe disse Lacan, de seu passe, e momento privilegiado de abertura a estas crianças que ela recebeu em análise. Cito Rosine:
“Que eu tenha atendido estas crianças durante minha própria análise, – enquanto trabalhava minha própria relação à falta, isto é, à falta do objeto, e não no equívoco do bom objeto a ser encontrado, – não foi sem conseqüências para o centramento dessas crianças sobre a falta na relação que eles entretinham com o objeto. Evidentemente, eu não poderia me equivocar e acreditar no papel de uma frustração oral qualquer nestas crianças que eram empanturradas. Ainda mais, minha posição de analisante era tal que eu só poderia ser sensível a uma falta que se abria para eles, tal como ela se abria para mim. Aconteceu que para além de toda confrontação maternisante, eu pude manter e sustentar minha interpretação nesta dimensão da falta e nunca na dimensão do objeto.”
Há encontros decisivos na vida, de uma forma ampla todos são, mas há aqueles que, por seu efeito subjetivo claro, imediato, nos permitem localizar rapidamente um ponto de virada. Meu primeiro encontro com Rosine e Robert Lefort se deu em meados de 1986, por ocasião de uma conferencia em Belo Horizonte sobre o caso Robert, “O menino do Lobo”. Tratava-se de uma psicose paranóica desencadeada muito cedo, mas perfeitamente comparável com a do Presidente Schereber que só desencadeara bem mais tarde.
Testemunho hoje a vocês o efeito de transmissão da psicanálise que eu colhi ali e que definiu meu engajamento na psicanálise lacaniana que, até então, caminhava a meu lado, mas que eu considerava fora de meu alcance. Eu não havia entendido grande parte daquela conferência, onde conceitos e significantes novos ressoavam enigmáticos, mas tive uma clareza: eu poderia vir a saber, pois ficou claro que naquele tratamento havia uma lógica, e que assim um saber e uma transmissão eram possíveis.
Fiéis a Lacan, em seu estilo muito próprio de escrever, articulando cada sessão e fazendo um mergulho vertical em cada nuance do trajeto dos casos estudados por eles, considero um grande mérito dos Lefort, abrir a possibilidade de que jovens sob transferência, – inclusive alguns que habitavam essas Alterosas – se engajassem no trabalho psicanalítico e na descoberta do ensino de Lacan. Os Lefort elevaram os casos clínicos atendidos por Rosine ao nível de paradigma. Eles se deixaram ensinar por estas crianças sobre o inferno de gozo, os impasses em que se encontravam e as saídas possíveis em seu encontro com um analista.
O percurso feito por Rosine e Robert Lefort neste livro, parte do autismo precoce em uma menina de 30 meses e chega aos traços de estrutura autistica de Proust, trabalhando nove autores, entre eles Donna Williams, Birger Sellin, além de Poe, Pascal, Lautréamont e Dostoievski. Os Lefort destacam que alguns autistas respondem ao real a que se confrontam com uma operação que é a de fazer um vazio. Frente o vazio criam-se as respostas mais interessantes da humanidade, tais como a religião, a ciência e a arte, pela via sublimatória. Os Lefort concluem: “A perspectiva criacionista, divina, poderíamos dizer, da obra de arte, da religião ou da ciência … a partir do vazio, pode se tornar o campo privilegiado do autismo… Criação ex-nihilo.”
Ao tratarem a questão da distinção do autismo, os Lefort estudaram profundamente as contribuições anteriores: Leo Kanner, por seu estudo longitudinal dos casos por mais de 30 anos; Francis Tustin e Meltzer, além de Winnicott . E ainda B. Bettelheim, que pôde acolher psicóticos e autistas e tratá-los também em função de sua posição de sobrevivente dos campos de concentração nazista, sendo por isso extremamente sensível aos efeitos devastadores do Supereu.
Os Lefort se posicionaram rapidamente e criticaram a tomada por outros analistas do autismo numa equivalência à esquizofrenia como uma simplificação frente ao que a clínica parecia convocar, e isso antes mesmo do Boom, da “epidemia” e da ampliação do chamado espectro autista. Era preciso pesquisar seriamente para que fosse possível destacar algo específico e um tratamento diferenciado. A temática do autismo, sua diferenciação e proximidade com o campo das psicoses, sempre foi um desafio para os Lefort.
Eles lideraram e foram pioneiros de uma posição que se evidencia em seguida nas pesquisas levadas à frente por psicanalistas lacanianos como Jacques-Alain Miller, Eric Laurent, Jean-Claude Maleval, e demais psicanalistas, diretores, coordenadores e participantes das instituições de orientação psicanalítica que acolhem essas crianças e investigam suas respostas e invenções à luz dos avanços teóricos da psicanálise de orientação lacaniana. Trata-se de uma pesquisa levada em sua radicalidade pelos Lefort e que avança hoje principalmente a partir da indicação de E. Laurent, segundo a qual é específico do funcionamento autístico que o gozo faça retorno sobre a borda, muitas vezes marcada pela presença de um objeto que o autista privilegia e não sobre o corpo, como na esquizofrenia, nem no outro como na paranóia.
Em seu livro A distinção do autismo, a questão que se coloca é a de uma “estrutura autística” que, sem se apresentar apenas como no quadro do autismo precoce, reconhece, por seus efeitos, vários elementos estruturais dominantes que se encontram em jogo nas situações, obras e sujeitos pesquisados. Sua proposta parte da investigação de como o encontro com o analista pode ser revelador dos impasses e da localização de pontos cruciais não apenas em casos clínicos, mas em casos autobiográficos, históricos e literários.
O autismo não é considerado pelos psicanalistas lacanianos uma doença, mas um funcionamento subjetivo singular e diferente do funcionamento subjetivo na neurose e na psicose.
A não-existência do campo de alteridade que é o grande Outro para esses sujeitos reordena toda a possibilidade de constituição do campo subjetivo pois interroga os elementos propostos por Lacan, verificando sua presença ou ausência e sua ordenação ou não em um discurso. Para os Lefort, o drama do autismo se coloca desde que sua relação com a não existência do Outro se dá de tal forma que impede o efeito de representação que se dá na entrada e na admissão pelo sujeito dos operadores da linguagem.
Eles elevam o atendimento clínico de uma criança, Marie-Françoise, ao nível do paradigma para comparar e extrair as consequências lógicas do que se passa no autismo precoce. Marie-Françoise os confrontou – tal como Lacan o tinha colocado na primeira parte de seu ensino – com a ausência do Outro não como alguém, mas como um lugar. Um lugar para a criança: aquele do significante, da palavra, do objeto do qual este sujeito o faz portador, em suma, o lugar da dialética da linguagem. É neste sentido que podemos dizer que o Outro, se ele não existe, tem, contudo, a presença real de um corpo.
É dos signos dessa presença real de um corpo que o autista visa se defender tapando seus ouvidos para a voz do Outro que lhe faz demandas, do olhar do Outro que o invade e para o qual ele vira as costas ou, se lhe dirige um olhar, ele é um muro e anula esse Outro. Enfim, marca as variadas estratégias que cada autista inventa para mostrar que para ele o outro pode estar lá, mas não existe, não é tomado na dimensão propriamente simbólica, ordenada como um campo de trocas.
Frente ao impacto da falta do olhar e da voz, muitas vezes a pulsão destruição-autodestruição fica apagada ou relegada a um problema de comportamento a ser sedado e controlado. A questão da violência na estrutura autística, ligada à pulsão de morte, é pouco levada em conta como uma dimensão a ser acolhida e investigada, pois a solução psiquiátrica e química é rapidamente aplicada, antes que se tenha a chance de se verificar seu valor para um determinado sujeito.
Muitas vezes na clínica vemos surgir inicialmente esta característica fundamental do autista concernindo sua relação ao mundo exterior e ao outro. Rosine Lefort relata: “…a violência com a qual Marie-Françoise entra em contato comigo revela uma relação fundada sobre a destruição, isto é, sobre o muscular e não sobre o olhar, que ela não tem. E o que lhe retorna é sua destruição e ela desmorona. Ela precisa que eu esteja ali e não exista”. Esta destruição/autodestruição apresenta um aspecto da relação do autista com o mundo exterior, ao qual ele permanece completamente estrangeiro, e que constitui, para ele, uma ameaça de intrusão intolerável.
Também Temple Grandin se apresenta inicialmente assim: “Eu era uma ‘criança estranha’; eu nunca falei antes dos três anos e meio. Até então, urrar, gritar e cantarolar eram meus únicos meios de comunicação”. Ela intercalava sua falta de contato afetivo com rompantes de violentos ataques de raiva e não mantinha outra relação com os objetos a não ser a de atirá-los e destruí-los. Segundo os Lefort: “Essa violência destrutiva manter-se-á em primeiro plano em todas as relações sociais de Temple, especialmente com seus colegas de escola nos quais, ela diz, dava ‘bofetadas por qualquer razão’. Sua agressividade era tal que foi necessária tanto ao ambiente familiar quanto ao escolar muita tolerância, cuidados e invenções para que ela pudesse ir em frente. Na maior parte dos casos de autismo, a solução psiquiátrica e química é aplicada e leva ao confinamento definitivo. A solicitude que cercava Temple lhe permitiu encontrar soluções que podemos qualificar de geniais e inteligentes”.
As marcas e características da estrutura autística precoce, assim como o que foi acentuado por Asperger, será investigado e destacado nos diferentes capítulos desse intrigante livro dos Lefort. O modo de estar o mundo, os impasses, os processos, as invenções e saídas mostram a riqueza de questões e detalhes mobilizados por esses sujeitos que o avanço da pesquisa psicanalítica pode registrar, trabalhando a lógica que aí se encontra em jogo. A partir disso somos convocados a pensar como alguns autistas revelam nuances não apenas de uma questão subjetiva mas também civilizatória e eminentemente contemporânea. O desafio de extrair um saber e inventar soluções para os impasses que se apresentam na clínica é também o que coloca a psicanálise como um interlocutor da civilização que atualmente enfrenta o reino mortífero da violência e da segregação.