Com o declínio do Nome-do-Pai e a queda dos ideais, encontramos cada vez menos sujeitos regulados no seu modo de gozo pela lógica edipiana – caracterizada pela marca da interdição e pelo recalque das pulsões sexuais -, e mais sujeitos regulados pelo super eu lacaniano Goze ! e guiados pelo discurso do mestre hipermoderno, o qual corresponde à “ uma combinação do discurso científico e do discurso capitalista” [2]. Os efeitos clínicos da transformação dos discursos sociais são variáveis, mas Marie-Hélène Brousse[3] destaca um em particular: a ascensão do Eu Ideal em detrimento do Ideal do Eu. Isto se verifica no sucesso das redes sociais, que num movimento pulsional eleva a imagem ao estatuto de objeto a, e incitam a um empuxo-ao-narcisismo, resultando no atual fenômeno social do “narcisismo de massa”. Esta elevação do Eu Ideal indica que estamos diante de um narcisismo que vai além da imagem especular. Aqui, trata-se sobretudo do narcisismo do Um-corpo, do ego, do amor próprio, da adoração do corpo próprio[4]. Dito isto, qual articulação podemos fazer entre a cultura do narcisismo e a psicose ordinária ?
De acordo com Brousse[5], a psicose ordinária deve ser compreendida a partir da evolução dos discursos sociais. Ela seria específica da época do fim do privilégio do Nome-do-Pai, do Outro que não existe, do « a relação sexual não existe » e submetida à lógica borromeana e à lógica da curva de Gauss. A isto acrescentamos que a psicose ordinária é segundo Miller[6], uma psicose dissimulada, discreta, onde o psicótico não possuindo o Nome-do-Pai como quarto elemento para amarrar de maneira borromeana RSI, tal qual o neurótico, teria em contrapartida, um « compensatory make-belive », a partir do qual ele inventará uma solução singular para compensar sua psicose.
Nossa hipótese é que este narcisismo da adoração do corpo, fomentado pelas soluções « prêt-à-porter » de ordem identitária e imaginária oferecidas pela nossa sociedade narcisista, funciona como sinthome, que como quarto elemento permite uma amarração não-borromeana dos três registros e contribui à ordinarização das psicoses, cujos sinais discretos, camuflados pelo culto ao narcisismo, socialmente aceitável, dificulta o seu diagnóstico.
[1] Doutoranda em Psicanálise pela Universidade Paris 8 : « Um estudo do narcisismo na perspectiva da psicose ordinária ».
[2] MILLER J-A., Le réel au XXIème siècle. Présentation du thème du IX Congrès de l’AMP, in Lacan Quotidien, n° 216, 28 mai 2012.
[3] BROUSSE M-H., « Corpos lacanianos: novidades contemporâneas sobre o Estádio do espelho », in Opção Lacaniana, Ano 5, n°15, novembro 2014.
[4] LACAN J., Le Séminaire XXIII : Le sinthome, (1975-76), Ed. Seuil, 2005, p. 66.
[5] BROUSSE M-H., « La psychose ordinaire à la lumière de la théorie lacanienne du discours » in Revue Quarto, n°94/95, janvier 2009, pp. 10 – 15.
[6] MILLER J-A., « Effet retour sur la psychose ordinaire », in Revue Quarto, n°94/95, janvier 2009, pp. 40 – 51.