O Núcleo de Psicanálise e Audiovisual e o Núcleo de Psicoses estabeleceram uma parceria de trabalho este ano de modo que mensalmente o cinema tem sido um ensejo para discutir em especial as vicissitudes do ordinário nas psicoses. No penúltimo encontro realizado em 26 de Julho o Núcleo de Psicanálise e Audiovisual se valeu da questão do enganche e desenganche para tratar das suplências que apelam ao imaginário e dos modos de corte e ruptura que decorrem da falta de significante em pontos de impasse para o falasser. A errância fundamental, as foraclusões restritas e generalizadas são as protagonistas dos filmes que põem em cena os temas em pauta. Seja que a foraclusão recaia sobre o significante do Nome do Pai, seja que recaia sobre um significante qualquer que apresente sem semblante o real do objeto, o cinema com sua vocação pela anomalia, algo pode nos ensinar.
Enganche e errância
O cinema se revela um recurso extraordinário para dar conta, através da imagem, do ponto de enganchamento que permite a um sujeito, que padece a impossibilidade de assumir a realização do significante pai ao nível simbólico, apreender-se no plano imaginário.
Lacan no Seminário 3:
Suponhamos [uma] situação que comporte precisamente para o Sujeito a impossibilidade de assumir a realização do significante pai ao nível simbólico. 0 que lhe resta? Resta-lhe a imagem a que se reduz a função paterna. E uma imagem que não se inscreve em nenhuma dialética triangular, mas cuja função de modelo, de alienação especular, da ainda assim ao sujeito um ponto de enganchamento que lhe permite apreender-se no plano imaginário[1].
Mas, na falta disto, funciona uma identificação imaginária que faz com que todo o Édipo esteja representado no plano imaginário, não em sua forma simbólica, mas um “como se” fosse Édipo[2]. Deffieux comenta essa operação: “ficar pendurado no Outro é suficiente para lhes permitir identificações aos modelos sociais que dependem do funcionamento edipiano. Isto, porém, não basta para justificar uma neurose”[3]
Vips (2010) de Toniko Melo ilustra muito precisamente do que se trata a invenção de um “como se” como resposta ao enigma da filiação. A suplência através dos diversos semblantes é claramente exposta no drama do personagem e na maneira como a direção aborda o seu enigma constituinte. O personagem inventa identidades aleatórias e assim envereda em uma rota de errância.
Vips
Errância e Desenganchamento
É interessante investigar como Lacan pensava o desenganchamento em 1956.
Nem todos os tamboretes têm quatro pés. Há os que ficam em pé com três. Contudo, não há como pensar que venha a faltar mais um só senão a coisa vai mal. Pois bem, saibam que os pontos de apoio significantes que sustentam o mundinho dos homenzinhos solitários da multidão moderna são em número muito reduzidos. É possível que de saída não haja no tamborete pés suficientes, mas que ele fique firme assim mesmo até certo momento, quando o sujeito, numa encruzilhada de sua história biográfica, é confrontado com esse defeito que existe desde sempre. Para designá-lo, contentemo-nos até o presente com o termo Verwerfung[4].
Continuemos acompanhando Lacan no desenganche:
Um mínimo de sensibilidade que nosso ofício nos dá nos faz ver claramente algo que se encontra sempre no que se chama de a pré-psicose, a saber, o sentimento de que o sujeito chegou à beira do buraco. Isso deve ser tomado ao pé da letra. Não se trata de compreender o que se passa ali onde não estamos. Não se trata de fenomenologia. Trata-se de conceber, não de imaginar, o que se passa para um sujeito quando a questão lhe vem dali onde não há significante, quando é o buraco, a falta que se faz sentir como tal. Repito isso para vocês, não se trata de fenomenologia. Não se trata de bancar os loucos – fazemos isso de modo bastante habitual, em nosso diálogo interno. Trata-se de determinar as consequências de uma situação assim determinada[5].
O cinema se especializa, com sua construção de “plots” em imaginar os antecedentes e as consequências de situações e suas determinações. Vejamos duas cenas que conduzem a finais semelhantes dentro de um mesmo filme do sul coreano Kim Ki-duk– Samaritan Girl (2004). Duas cenas onde os protagonistas chegam a beira do buraco e como o cinema põe em cena a ausência de significante e a passagem ao ato como resolução do abismo.
Samaritan Girl 1: 18:50mim – 20:40mim
Samaritan Girl 2:
Ao fim, constatamos como a perplexidade do encontro com a falta de significante é não só um impasse que se constata na clínica da neurose e da psicose em suas diferentes respostas possíveis, mas também um tipo de situação da qual o cinema se nutre para mostrar o que seria a própria estrutura do pathos do corte e da errância constitutiva do falasser.
Nada melhor que o pequeno trecho do filme de Jim Jarmusch – Férias Permanentes (1980) – para nos transmitir algo desse pathos errante.
Férias Permanentes: