
Membro EBP/AMP
O objetivo central deste trabalho é tomarmos o autista como um sujeito e não como um deficiente, o que quer dizer que eles têm o que dizer e precisam ser escutados. Destinar espaços, nas instituições ou na clínica privada, onde possamos discutir a prática clínica com crianças autistas ou psicóticas é fundamental para orientarmos nossas intervenções pela teoria, evitando desse modo recobrir a Real que ali comparece sobremaneira, com leituras imaginarizadas. E, desde já, aponto o diferencial do analista de orientação lacaniana que clinica com crianças: nos orientamos para o Real. Laurent nos diz que,” para nos desfazer dos prestígios idólatras do corpo e de suas imagens, era preciso uma verdadeira ascese da orientação para o real. Segundo os Lefort, “ Seria uma grande contradição manter a psicanálise de crianças reduzida a uma técnica de jogo e de desenho, considerando-se a capacidade que a criança demonstra, sobretudo quanto menor ela for – antes mesmo de falar -, quando se trata de nos esclarecer sobre um ponto tão essencial como a constituição do sujeito no discurso analítico… “ Era preciso retomar a psicanálise de crianças nesse nível mínimo,ali onde o corpo aparece de maneira privilegiada como um corpo de significante. Significante, certamente, mas onde o real ocupa o lugar que lhe cabe a partir do objeto a, e se o sujeito aparece como um efeito de real, isso é justamente na criança.”

Diogo Calife – artista.
Vou privilegiar as três vias preliminares a qualquer trabalho possível com autistas: a epistêmica, a clínica e a política.
- Política: que lugar para o autismo?
Estamos em um momento muito importante para afirmação da psicanálise como terapêutica eficaz para o tratamento dos sujeitos autistas e psicóticos. Visto que, por um lado, temos a safra de DSMs, com a tentativa de construir algo objetivável no mundo e na psiquiatria, neste sentido o autismo foi retirado do quadro da esquizofrenia e passou a fazer parte do TSA, “transtorno do espectro autístico”. Advém daí algumas consequências que merecem destaque: sendo um transtorno do comportamento, o número de autistas aumentou consideravelmente após o DSM V e o portador de autismo é visto como deficiente. Nessa perspectiva temos, por um lado a categorização dos comportamentos humanos onde se busca estabelecer uma relação dos mesmos com a medicação conveniente. Por outro, existem as técnicas de alterações dos padrões comportamentais que se pretendem universais tomando como ponto de apoio o saber do técnico e não o do sujeito, favorecendo as técnicas de reeducação, como “terapêutica princeps” no tratamento de autistas.
2) A via epistêmica não vem sem a clínica.
Inúmeras são as vertentes que se pode tomar ao se debruçar sobra a clínica com autistas. Neste trabalho, a partir de um fragmento clínico, me interessei nas relações possíveis entre os objetos autísticos e a transferência. Este viés tem uma conexão direta com o desenvolvido no item anterior, visto que o campo de interesse dos autistas, seus objetos autísticos, são o viés pelo qual o praticante da psicanálise tenta estabelecer a transferência, demonstrando assim que há um trabalho a ser feito pelos psicanalistas com autistas.
Lembramos que na atualidade, é de bom tom denegrir o trabalho realizado por Bettelheim, retratado em seu célebre livro, A Fortaleza Vazia, sobre o caso Joye, sobretudo a partir da argumentação que culpabilizava os pais. Maleval[1] nos lembra que:
“Sua posição era, seguramente, mais branda, posto que afirmava que não era a atitude da mãe que produzia o autismo, mas a reação espontânea da criança a essa atitude. .. Apesar de todas as críticas, não devemos esquecer que ele foi um dos pioneiros, ainda nos anos 50, a demonstrar que o diagnóstico do autismo não deveria levar à desesperança terapêutica.”
Retomando nosso eixo teórico – clínico, lembramos que diversos autores questionam que tratamento dar aos objetos autísticos, refletindo se eles constroem subjetivamente a criança ou se atrapalham seu desenvolvimento.
Partiremos de Tustin psicanalista inglesa, responsável, não só por isolar os objetos autísticos, mas também por diferenciá-lo dos objetos transicionais. Os primeiros fazem parte do “eu” e são proteção contra a perda e os segundos do “ não eu” mas decorrentes da perda. Para esta autora os objetos autísticos possuem uma dimensão patológica, impedindo a vida e a criatividade. Ela aponta para o efeito devastador destes objetos, que substituem os cuidados maternos. Segundo Maleval, as técnicas de reeducação comportamental os tomam como anomalias comportamentais, a serem normalizadas.
Diversos exemplos clínicos compartilhados por esta autora em seu livro Autismo e Psicose demonstram a indicação clínica de retirá-los mesmo que tal conduta provoque o desencadeamento da angústia na criança.
Entretanto se seguirmos, como nos sugere Eric Laurent, o depoimento dos sujeitos autistas que nos comunicam, por vezes, em livros, o que foi sua enfermidade, seu modo de ser, encontraremos os objetos autísticos como recursos preciosos para os autistas. É a partir destes depoimentos que temos conhecimento que as crianças autistas, desde tenra idade, se apegam mais às máquinas que ás pessoas. Acompanhemos Donna Williams: “ para mim, as pessoas que eu amava eram objetos, e esses objetos ( ou as coisas que os evocavam) eram minha proteção contra as coisas das quais não gostava, quer dizer, as outras pessoas … Comunicar por meio de objetos era sem perigo”. Temple Grandin também indicava quão proveitoso seria para os educadores seguir as indicações dos interesses dos autistas de modo a construírem um saber a partir deles, de suas fixações, em vez de tentar erradicá-los.
A psicanálise de orientação lacaniana designa um outro lugar para estes objetos, o lugar de uma aliança que visa a transferência que, nesta clínica, não se apoia no SSS, mas como nos salienta Laurent[2] na possibilidade de ampliar o mundo do autista, através da invenção.
Para detalharmos esta parceria recorrerei, inicialmente, à pergunta: o que é o autismo para a psicanálise?
Advém de Rosine e Robert Lefort a distinção que se segue:
“No autismo: não há especularidade nem divisão do sujeito, há um duplo que o autista encontra em cada outro, seu semelhante, cujo perigo mais agudo, é a iminência de seu gozo e a necessidade de matar, nele, essa parte que a linguagem não eliminou, para que se funde uma relação com o Outro como de terraplanagem higienizada de gozo… Essa necessidade é a fonte de exaltação pulsional do autista, ou seja, da destruição/autodestruição como satisfação-gozo da única pulsão, a pulsão de morte.”
Essa ideia do Outro como terraplanagem higienizada do gozo, Lacan desenvolveu em seu Seminário XVI, esclarecendo que além de ser no Outro que o inconsciente é estruturado como linguagem, ele é também “ um terreno do qual se limpou o gozo”.
Os sujeitos autistas são aqueles para quem o Outro não existe, tampouco o gozo prévio. A natureza real deste Outro sem furo torna qualquer relação impossível, decorrendo daí a função do duplo, que aponta para a impossibilidade de identificação com um objeto que o Outro seria portador e que dele seria separável. Advém daí a impossibilidade dos circuitos pulsionais, dos objetos voz e olhar, como bem adverte Maleval. “ Por falta de ter um pé no Outro, ele pode apenas fazer-se de seu eco”.
É o que nos demonstra Joaquim que, aos três anos, ainda não consegue falar. O que propõe a psicanálise como tratamento a crianças que não consentiram com a separação da voz do corpo? O auxílio veio através da música. No meio do turbilhão de gestos estereotipados, a música conseguia retirá-lo dos movimentos iterativos, ampliando o laço transferencial com a analista. Esta, ao colocar um CD de músicas familiares a Joaquim, aumentava e diminuía o volume do som, tentando fazer funcionar um par de significantes opostos, dos quais pudesse se apropriar. A aposta era que o jogo de oposições significantes, franqueasse o encontro com o que vem do Outro de modo menos traumatizante.
Neste particular, destacamos a dimensão de objeto que a fala pode adquirir, aspecto trabalhado, sobretudo por Maleval que organiza a clinica do autismo a partir do objeto voz. Segundo este autor “ a marca de gozo não é extraída da fala, a ponto de o sujeito viver a emissão da fala como uma verdadeira mutilação. Falar, então, é “esvaziar-se”. Conclui : “ a dissociação entre a voz e a linguagem está no princípio do autismo”.
Autistas são aqueles que querem interpretar a língua de maneira totalmente redutível a um sistema de regras, eliminando deste modo os equívocos significantes. A vontade de que nada mude, a obediência imperiosa à imutabilidade são manifestações do UM, pura iteração a que estão submetidos os autistas, sobretudo pelo excesso de gozo não contabilizável que invade seus corpos. Clinicamente isto se manifesta pela repetição de condutas isoladas ou circuitos mínimos que se organizam como justaposições reais e não como consequência de uma organização de pares significantes.
Joaquim, além da música, durante as sessões ou em casa, se via fascinado por lápis. Inúmeras vezes juntava todos que encontrava na sala e, repetidamente, os lançava ao chão. Ato contínuo subia nas cadeiras, na pequena mesinha e de lá se jogava. Ali ele era o objeto. A analista passa a não deixar que nem ele, nem os objetos caíssem, com o objetivo de retirá-lo deste lugar.
O autista é aquele que apresenta uma relação muito particular com certos objetos. Verificamos, em alguns casos, que o corpo do sujeito está numa relação de acoplamento com este objeto de gozo fora do corpo. Dele, não se separam, reagindo com angústia quando lhe são, selvagemente, extraídos. Tais objetos instalam uma borda entre o corpo e o mundo exterior, e ajudam aparelhar um gozo pulsional em excesso. Sua existência é índice de que a regulação da pulsão não se deu, revelando que um não funcionamento da dinâmica pulsional. Sua relação com o corpo é limpa de todos os órgãos de troca e a não fragmentação do corpo por seus órgãos é substituída por uma carapaça. O sujeito “se goza”, sem o trajeto da pulsão.
Para concluir:
Em que o encontro com um psicanalista pode beneficiar ao autista?
Todo o trabalho visa em tornar-se parceiro do sujeito a partir de um objeto. O circuito dos objetos, o vai e vem destes numa sessão, tem como objetivo ampliar os limites da borda autística visando uma cessão do excedente de gozo que transborda em seu corpo. Deste modo o sujeito pode ampliar seu mundo.