A questão da psicose ordinária se delineia a partir de 1997 na conversação de Arcachon com a apresentação do trabalho “Um caso nem tão raro” de Jean-Pierre Deffieux. Neste momento, surge o debate sobre os casos que não se inserem numa concepção binária da clínica que reduz os casos a psicose ou neurose. Na Convenção de Antibes (1998), Miller abre um novo campo de debate e investigação: as psicoses ordinárias, apresentando o termo não como conceito, mas como tema, permitindo orientações diversas. O livro “Loucuras discretas: um seminário sobre as chamadas psicoses ordinárias” apresenta a contribuição de Graciela Brodsky, no programa de ensino do CLIN-a, expondo diferentes formulações acerca do tema e, principalmente, suas próprias concepções e interrogações.
A primeira distinção estabelecida é com relação ao termo pré-psicose e psicose ordinária. O termo pré-psicose foi utilizado pontualmente por Lacan no seminário 3, referindo aos fenômenos que existem antes do desencadeamento, deste modo, é uma concepção fenomenológica que apenas busca identificar o mecanismo que possibilitou o desencadeamento da psicose. Graciela propõe que a psicose ordinária é uma psicose que não se desencadeou e que não tem possibilidade de se desencadear, sendo o último ensino de Lacan a via de aproximação deste tema.
Lacan evidencia no seu ensino dois casos paradigmáticos de psicose, Schereber e Joyce, sendo que, nenhum dos paradigmas supera o outro mas permite ordenar fenômenos variados ao abordar a questão a partir da ênfase dada ao significante ou ao gozo. No paradigma Schereber, não ocorreu a inscrição no campo do Outro do significante fálico, pois a metáfora paterna não se estabeleceu, deste modo, o sujeito não tem a possibilidade de se orientar frente ao enigmático desejo da mãe. O desencadeamento ocorre quando o sujeito se encontra com um acontecimento onde uma significação enigmática – que se encontra no campo do Outro ou no seu próprio corpo – pela impossibilidade de ser significada com a significação do falo, precipita o sujeito a dar uma significação totalmente pessoal e original. As ferramentas teóricas do caso Schereber são completamente insuficientes para entender a psicose de Joyce, sendo necessário recorrer a topologia borromeana proposta no Seminário 23.
Os índices da psicose no caso Joyce são a reinteração da carência da função paterna e o fenômeno de desprendimento do corpo. A indiferença do sujeito em relação ao seu próprio corpo infere uma falha no enodamento das três dimensões RSI, implicando na desaparição do sentimento de propriedade do corpo. Apesar da falha, a psicose não se desencadeia em Joyce, pois a escrita como uma suplência, segundo a hipótese lacaniana, possibilitou uma reparação do erro no enodamento exatamente no ponto onde se produz a falha. Para Graciela, o interesse na psicose ordinária deve consistir em investigar casos que respondam, mais ou menos, ao paradigma Joyce, ou seja, casos aos quais se supõe um enodamento estável sem o Nome-do-Pai.
A psicose ordinária traz uma verdadeira subversão à clínica da psicose ao retirar dela toda referência a qualquer noção de déficit. Miller, ao abordar a psicose ordinária, refere se tratar de uma desordem provocada na junção mais íntima do sentimento de vida no sujeito, sendo os seus indícios as desordens na maneira como o sujeito sente o mundo que o rodeia, o corpo, as ideias e a sexualidade. O último ensino de Lacan faz do Nome-do-Pai um sinthoma como os demais, deste modo, o que interessa em cada tratamento é delinear o nome próprio do sinthoma, ou seja, como cada falasser mantém unido o que naturalmente está separado.