
Psicanalista em Barcelona. Membro da Escuela Lacaniana de Psicoanálisis (ELP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), Presidente da AMP.

Maria Leonor – artista plástica
A solidez de um conceito clínico é medida pela efetividade de seu uso, especialmente quando dá conta de um campo de fenômenos para os quais não existia antes um plano estabelecido. A partir dessa perspectiva, podemos dizer sem dúvida que o conceito de psicoses ordinárias, criado por Jacques-Alain Miller[1] no final dos anos noventa, tornou-se um conceito clínico já estabelecido, um conceito de uma efetividade relevante, haja vista o seu uso amplamente estendido desde então no Campo Freudiano… e mais além. As psicoses ordinárias dão conta de uma série de fenômenos que às vezes passam despercebidos por sua aparente normalidade, mas que, escutados desde o ensino de Lacan, indicam as condições de estrutura que temos aprendido a localizar no campo das psicoses.
Discretos acontecimentos de corpo, sutis chumbadas de sentido no deslizamento da significação, fenômenos de alusão velados, suplências minimalistas de alusão a partir das quais o sujeito sustenta a frágil estabilidade de sua realidade. Estes fenômenos estavam aí, à vista de todos, mas se confundiam com o cenário da normalidade em sua frequência. Tal como indicava o próprio Jacques-Alain Miller na hoje conhecida “Convenção de Antibes”: “passamos da surpresa à raridade e da raridade à frequência”[2]. Quer dizer, passamos da surpresa pelo encontro do excepcional e do extraordinário, a prestar atenção em fenômenos que por sua frequência já nos eram familiares.
Mas ali onde opera o prejuízo da normalidade, esse fantasma que adquire em nossos dias a categoria de verdade estatística, trata-se sempre de encontrar a estranheza do traço clínico em seu detalhe mais singular. Assim, as psicoses ordinárias revelam-se a nós agora como um tipo de carta roubada de nossa clínica: estavam tão à vista de todos que se escondiam a cada um. Bastava um ligeiro deslocamento do foco clínico para desvelar nesses fenômenos a estrutura da psicose em suas diversas formas de enodamento, e de revelar com essa mudança de perspectiva que o mais estranho habitava no mais familiar da clínica. As psicoses ordinárias são assim também o Unheimlich (o estranho, o estranhamente familiar) de nossa clínica. E não é raro verificar o afeto ligado ao Unheimlich no psicanalista praticante quando se destaca a dimensão do estranhamente familiar desses fenômenos.
Então, se o conceito de psicoses ordinárias veio delimitar o mapa do que era até então uma terra incógnita de nossa clínica, é também porque mostra que a orografia[3] de seu terreno está presente em cada um dos continentes previamente definidos pela cartografia clássica, a cartografia repartida segundo as categorias psicose, neurose e perversão. Dito de outra maneira, o mapa cria aqui o terreno antes mesmo de representá-lo, até confundir-se com ele. Isso quer dizer também que a linguagem, incluindo aquela da clínica, antes de ter uma função de representação da realidade, está enodada na mesma operação de construção e de percepção desta realidade. É algo tão estranho quanto familiar para alguém pautado na orientação lacaniana mais clássica: a percepção eclipsa a estrutura ali onde a estrutura revela o modo como se constrói esta percepção.
Vamos agora considerar a natureza do terreno que hoje conhecemos com o termo “psicoses ordinárias”. Imaginemos uma espécie de Google Earth da clínica onde podemos visualizar o terreno e as localizações geográficas com seus nomes e fronteiras. Encontramos aí, seguindo nossa clínica clássica, claramente estabelecidos os dois grandes territórios das neuroses e das psicoses, com suas fronteiras e subfronteiras, com a histeria e a neurose obsessiva por um lado, com a paranoia e a esquizofrenia por outro. Podemos localizar também a melancolia, as perversões, ainda que às vezes se desfoquem um pouco mais em algumas de suas fronteiras para revelar sua condição de traços que podem ser compartilhados por países distintos. Existem, com efeito, traços melancólicos em vários lugares dos continentes delimitados, assim como traços de perversão, para retomar o tema de um Encontro Internacional do Campo Freudiano que ocorreu há umas décadas[4].
Se escrevemos agora “psicoses ordinárias” nesta ferramenta de busca imaginária que é o Google Earth da clínica para ver como os zooms sucessivos nos conduzem a uma localização precisa – surpresa! – a lista de lugares que aparecem na janela de busca alarga-se mais e mais até fazer-se presumivelmente infinita. A tal ponto que pareceria que as “psicoses ordinárias” podem estar hoje em qualquer parte do mapa, sem poder reduzir sua descrição a um traço nem tampouco constituir-se em um continente em si mesmo. Se clicamos em qualquer um desses nomes, isso nos conduz a lugares já conhecidos. E se seguimos verificando a lista, talvez poderíamos concluir então que a psicose ordinária é em realidade o próprio Google Earth em seu conjunto, o próprio sistema de representação com o qual tentamos localizar os lugares de nossa clínica clássica. É uma clínica constituída de traços discretos, que valem pela diferença que existe entre uns e outros, ao estilo do sistema estrutural da língua que conhecemos desde a linguística de Saussure. Mas aqui os traços são tão discretos – permitam-me o equívoco desta palavra –, tão sutis que desaparecem à vista de todos e só aparecem na singularidade de cada caso, e cada vez de maneira distinta. Difícil construir um mapa geral e uma ferramenta de busca precisos com essas condições de representação, a não ser, como dissemos, que o lugar em questão que buscamos seja precisamente o próprio sistema de representação no qual operamos.
Digamos de imediato que este paradoxo não parece nada estranho aos leitores de Jacques Lacan. Está presente desde muito cedo em seu ensino. Ele mesmo leu sua própria entrada na psicanálise, a que leva o título de sua famosa tese de 1932, Da Psicose Paranoica em suas Relações com a Personalidade, dizendo alguns anos depois que a personalidade é a paranoia e que é por essa razão que não há de fato relação entre uma e outra. Nada mais normal do que a personalidade, nada menos discreto também, considerando o termo “discreto” com o equívoco que assinalamos.
Mas então, a categoria das “psicoses ordinárias”, que nos parecia tão efetiva em seu uso, nos escapa agora precisamente pela extensão e efetividade desse uso? Não nos estará ocorrendo o mesmo que assinalava Lacan nos anos cinquenta quando estudava o uso da interpretação no meio analítico a partir das observações de Edward Glover? Recordo-lhes sua indicação a esse respeito em seu escrito sobre “A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder”: Edward Glover, perante a falta do termo significante para operar na experiência analítica, escreve Lacan: “encontra a interpretação por toda a parte, na impossibilidade de retê-la em parte alguma, e até mesmo na banalidade da prescrição médica”[5].
Tal desvio seria sem dúvida nossa segura confusão de línguas, confusão esta que se acrescentaria à Babel atual da clínica, uma clínica que parece desaparecer, ela própria, no mundo das nosografias cada vez mais desordenadas e hoje em dia alimentadas pela crise do sistema DSM. É sabido que a crise deste sistema, em suas novas versões, estendeu tanto as descrições do patológico na vida cotidiana que não há um só canto que não seja diagnosticado com um possível “transtorno”. Até o ponto de se dizer que se alguém não se encontra descrito em uma das páginas do manual é porque realmente deve ter um “transtorno” grave.
Trata-se na realidade de uma perspectiva equivocada homóloga ao que descrevíamos com o modelo do Google Earth. Com a introdução da categoria das “psicoses ordinárias” na clínica encontramo-nos – como assinalava Jacques-Alain Miller no momento de introduzir o termo – “divididos entre dois pontos de vista contrastantes, que não se excluem mutuamente”[6]. Na primeira perspectiva, a que podemos ordenar a partir do primeiro ensino de Lacan, há uma descontinuidade entre neurose e psicose, há fronteiras mais ou menos precisas, há elementos discretos e diferenciais, tributários de uma lógica a partir da qual funcionam os Nomes do Pai e da lógica do significante que opera de modo opcional pelas diferenças relativas entre os elementos. Quando há fronteira no mapa, há diferenças opcionais entre dois territórios, há também uma reciprocidade possível entre eles para se definir o que um é e não é em relação ao outro. Na segunda perspectiva, a que podemos ordenar a partir do último ensino de Lacan, destaca-se melhor a continuidade entre os territórios, naquilo que os faz contíguos, como dois modos de responder a um mesmo real, como dois modos de gozo frente a uma mesma dificuldade do ser. Não se trata já nesta segunda perspectiva de estabelecer fronteiras, mas de constatar enodamentos e desenodamentos entre fios que estão em continuidade.
Assim, podemos dizer que não há propriamente uma descrição clínica das psicoses ordinárias segundo o modelo clássico que ordena suas categorias a partir de uma série de traços presentes no interior de um conjunto mais ou menos bem delimitado. Resultaria impossível então incluir uma categoria como essa na lógica do DSM ou dos manuais de diagnóstico habituais, onde enumeram-se os traços que devem estar presentes em cada categoria clínica. Do ponto de vista descritivo, poderiam definir-se melhor por um traço que verificamos faltar, mas nunca o mesmo, por aquilo que percebemos que falta em relação às psicoses clássicas, mas também pelo que verificamos que falta em relação às neuroses clássicas. Nos vemos obrigados então a defini-las, mais do que nunca, caso a caso, e sempre a partir do contexto onde encontramos essa falta.
Se me permitem dizer assim, a categoria “psicoses ordinárias” inclui então as categorias que não se incluem em si mesmas: parece uma histeria, mas não é histeria, não inclui os traços que conhecemos da histeria, parece uma neurose obsessiva, mas que não inclui os traços da neurose obsessiva, parece uma paranoia, mas não inclui os traços da paranoia… O que converte as psicoses ordinárias em um tipo de paradoxo de Russell, o conhecido paradoxo daquele conjunto que inclui os conjuntos que não se incluem a si mesmos. Há várias maneiras de ilustrar o paradoxo de Russell, uma é a do catálogo que inclui todos os catálogos que não se incluem a si mesmos, sem poder concluir finalmente sobre a pergunta a respeito do primeiro catálogo incluir ou não a si mesmo.
Desse modo, a categoria das psicoses ordinárias implode o sistema diagnóstico da clínica estrutural. Ocorre com elas algo parecido ao que ocorria na primeira clínica freudiana com a introdução das chamadas “neuroses atuais”, as neuroses que Freud distinguia das psiconeuroses clássicas e que se definiam pela ausência da história infantil e da sobredeterminação simbólica dos sintomas. Toda neurose era uma neurose atual até que não se encontrasse esses dois elementos estruturais que não cessavam de não se escrever… até o encontro contingente que decantava sua significação.
Digamos que o único modo de verificar esse fato, o único modo de pôr à prova esse real que não cessa de não se escrever em cada caso é a própria estrutura da experiência analítica, a estrutura que se revela no fenômeno da transferência. Dito de outro modo e para concluir: as psicoses ordinárias só se ordenam clinicamente quando seus fenômenos se precipitam, se ordenam, na lógica da transferência. Somente aí se revelam as psicoses ordinárias como ordenadas sob transferência.
Texto da intervenção de Miquel Bassols no Congresso da NLS, realizado em Dublin em 02 e 03 de julho de 2016. Publicado em: Mental: Revue Internationale de Psychanalyse. Signes Discrets dans les psychoses ordinaires. Éditeur responsable: Clotilde Leguil. No. 35, Janvier, Paris: EFP, 2017. Disponível online em castelhano: http://miquelbassols.blogspot.com.br/2016/07/las-psicosis-ordenadas-bajo.html
Tradução: Carla Fernandes
Revisão: Pablo Sauce e Tania Abreu
[1] MILLER, J-A. A Psicose Ordinária – A Convenção de Antibes. Belo Horizonte: Scriptum, 2012.
[2] Idem, p. 241.
[3] Parte da geografia física que se dedica à descrição das montanhas. Através de suas representações cartográficas é possível pesquisar o relevo de uma região.
[4] IV Encontro Internacional do Campo Freudiano ocorrido em Paris em 1989, sobre o tema Traços de Perversão.
[5] Lacan, J. A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, P. 509.
[6] MILER, op. cit., p. 242.