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VIDRADOS NO OLHAR – Resenha sobre “O show do eu – A intimidade como espetáculo”, de Paula Sibilia[1]

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VIDRADOS NO OLHAR – Resenha sobre “O show do eu – A intimidade como espetáculo”, de Paula Sibilia[1]

xxiiijornada 19 de julho de 2018 in Boletim Persiana Indiscreta 0

Marcela Antelo – AME Membro da EBP e da AMP

Engana-se quem afirma que as teses doutorais são inimigas do gosto pela leitura. Em sintonia com o método privilegiado de Lacan, a chave, que é o que para abrir funciona, no livro de Paula Sibilia damos de cara com o buraco da fechadura. Ao longo de nove capítulos leva a sério a provocação suscitada pela revista Time no final do ano 2006 quando, as usual, escolhe a personalidade do ano. Para alvoroço da mídia, a personalidade do ano foi: Você ou melhor “Você, mas também eu e todos nós”.

Paula soube ler nesse fato um sinal dos tempos, um corte na história, a travessia de uma época limítrofe. Intrigada pelo auge da exibição contemporânea de intimidade, ela escolhe abordar a experiência subjetiva na sua dimensão particular. Não lhe interessa traçar um universal, ela nos brinda com uma informação valiosa sobre o Techno-apartheid, que desmistifica o Para Todos da utopia tecnológica, nem o singular que reserva para nós e para as artes. O particular, como dimensão de análise, situa-se numa zona “entre”, elementos comuns a alguns, mas não a todos, formas de ser historicamente produzidas, subjetividades hegemônicas no mercado cultural que nos envolve.

A incitação à visibilidade, a tirania da transparência, o olho absoluto, recentemente elucidado pelo nosso colega Gérard Wajcman, para quem também a intimidade tem uma história, quer dizer, não está aí desde sempre nem para sempre. O cenário é a “parafernália” que compõe a Web 2.0, os blogs, fotologs, blooks (fusão de blog e book) os nano-blogs como Twitter, Pownce ou Jaiku. Sibilia insiste em tornar evidente o deslocamento de uma subjetividade introdirigida, própria ao Homo privatus, psychologicus, a uma subjetividade das superfícies, acorde com uma crescente publicização do privado.

Para surpresa do leitor lacaniano, é a extimidade que ela porá em cena mais de uma vez ao longo das suas páginas, literalmente. Lamentavelmente considera apenas o termo como um trocadilho e com ele simpatiza. Desconhece que Lacan usa a palavra “extimidade” a propósito do amor cortês em 10 de fevereiro de 1960 e volta a usá-la em 12 de março de 1969, dizendo que devemos “fazer a palavra êxtimo” para dizer do que se trata o campo do gozo. O curso de Jacques Alain Miller, que leva a extimidade por título, é de 1985/86, e foi recentemente publicado por Paidós em espanhol[2].

Durante nove capítulos a escrita não perde o fôlego sobre as diferentes modalidades que o eu encontra para montar seu show. Um dos grandes méritos da investigação de Sibilia é o uso da lupa na hora de pintar “a relevância dos laços incestuosos que amarram as novas tecnologias ao mercado, instituição onipresente na contemporaneidade, e muito especialmente na comunicação mediada por computador”[3]. O ensaio começa com uma pergunta e ela a multiplica, fugindo da resposta fácil, uma vez que nem demoniza o momento atual, nem se esconde na nostalgia, mas cuidadosamente interroga o presente.

O festival de vidas privadas à disposição dos voyeurs é estridente no Brasil, terceiro país mais blogueiro do mundo. O eu como ficção gramatical inventa-se uma intimidade e se dá a ver em escritos êxtimos, satisfazendo uma intensa fome de realidade que congestiona a Web cada dia.

Um leque extenso de autores se faz presente com elegância, suscitando o oposto da recepção preguiçosa que caracteriza a atual comunicação audiovisual, ao convocar a leitura como degustação em contraposição ao consumo fácil. Guy Debord e Walter Benjamin retornam com seus martelos consistentes: a morte do narrador, o espetáculo como oposto à arte da conversação, o desprestígio da experiência, a imposição da juventude obrigatória e universal, a degradação do ser no ter, a tirania da interioridade, a pobreza de histórias surpreendentes, o império da passividade moderna, a asfixia do homem público, a técnica como segunda natureza, a positividade do aparecer e a história como espectro.

A multiplicação de autoficções seria signo de uma subjetividade plástica e mutante que libera da tirania da identidade ou da generalização da máscara, império dos semblantes, num mundo de festas de pijama que não tolera o secreto? O eu da extimidade sibiliana é presunçoso e só pretende conquistar a visibilidade por meio das confissões multimídia. Os verbos em alta são: parecer e acessar.

Lola Copacabana, autora de blogs e blooks, declara: “Vivo, constantemente, fazendo o esforço para que não existam na minha vida coisas inconfessáveis”. Tirania de uma transparência cega feita ideal de época e que mereceu um número especial da jovem revista francesa Le diable probablement. Trata-se de uma polimerização do universal fácil que transforma a primeira pessoa numa variante da terceira, escreve ali o colega Jean-Claude Milner. O que Paula Sibilia chama de “todos nós”.

Esparramar a intimidade sobre um papel tem uma história, e a autora a percorre para nós. Santo Agostino, Montaigne, Rousseau, Proust, Gumbrecht Chartier, Taylor, Foucault, Sennett, Simmel. A expansão do mundo interior que tanto estranhava aos modernos cede lugar a um eu que passa a se estruturar em torno do corpo, novo objeto de design.

Os abalos nos alicerces da subjetividade atingem não somente o eixo espacial, mas, também, o modo de viver o tempo. Subjetividade instantânea, prioridade da atualização permanente que desafiam a profundeza sincrônica do eu, assim como sua coerência diacrônica. O presente se infla, o tempo se congela e o paradoxo identificado junta o a-historicismo à obsessão pela memória. Hoje rebobina-se a vida como um filme, operam-se flashbacks, aplicam-se zooms, faz-se travelling ou close up sobre cenas traumáticas, deleta-se ou faz-se um back-up, turbina-se. Novas formas de pensar a memória inspiradas nos códigos do momento que revelam a perda da espessura semântica e da potência causal do tempo.

Num capítulo irresistível para o leitor freudiano, Sibilia contrasta a alastrada temporalidade de Roma, com suas infinitas camadas, com a espasmódica temporalidade de Pompéia. Aponta seus dardos contra as neurociências que pretendem otimizar tecnicamente a memória do sujeito, modificar seletivamente suas lembranças, apagar traumas, digitalizar conteúdos mentais. Eric Kandel (Prêmio Nobel 2000), citado pela autora, não duvida de que logo existirá a tecnologia para apagar lembranças, bem como as inibições. Não duvida que a possibilidade de virar a página de nosso folhetim nos tornará pessoas piores. A informatização da experiência comporta uma mutação radical do tempo, não mais infinitas Romas, mas a multiplicação de Pompeias petrificadas.

A riqueza está no indizível, no que não se pode mostrar, conclui Sibilia, e propõe ao leitor gerar curtos-circuitos, faíscas capazes de fazer implodir a modorra autocelebratória que o show do eu provoca em Você, eu e todos nós.

 

 


[1] Texto previamente publicado em ANTELO, Marcela, “Resenha O show do eu: A intimidade como espetáculo”, Correio n. 69, São Paulo: EBP, 2011.
[2] Cf. MILLER, Jacques-Alain, Extimidad. Buenos Aires: Paidós, 2010.
[3] SIBILIA, Paula, O show do eu: A intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2008, p. 23.
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ENTRE(a)VISTA com Ciro Salles Sociedade da transparência, opacidade da intimidade[1]

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