
Jorge Rodríguez – Psicanalista em Buenos Aires. Psicólogo UBA (Universidade de Buenos Aires)
RESUMO: Neste artigo, o autor propõe interrogar a posição do psicanalista em tempos hipermodernos e usa a tensão entre a intimidade proposta como um espetáculo exibicionista e o que a psicanálise permite localizar como êxtimo no quadro da cena analítica.Uma vinheta clínica muito interessante permite fazer um contraponto entre as identificações exigidas pelo mestre contemporâneo e o uso singular que um sujeito faz de sua intimidade a partir da arte de fotografar como um tratamento suplementar e uma forma de exercer sua liberdade.
A exposição de intimidade foi instalada hoje como uma prática social na cena contemporânea. Estamos testemunhando uma transformação dos usos e costumes com relação a algumas décadas atrás, quando a divisão entre público e privado era consideravelmente mais nítida. Antigarmente, expor o íntimo em público era obsceno e, portanto, apenas desaprovação e rejeição eram obtidas.
Em nossos dias, encontramos diferentes modos de exibição do íntimo. Um exemplo disso é o espetáculo dos reality shows, onde mostrar o obsceno é transformado em um negócio ou exibicionismo simples. É nessa cena que surge uma modalidade instantânea e própria deste novo século: as redes sociais. Paula Sibilia, em O show do eu: a intimidade como espetáculo, descreve essa mutação da seguinte maneira: “Estamos vivendo em uma era limítrofe, um corte na história, uma passagem de um certo regime de poder para outro projeto político, sociocultural e econômico. Uma transição de um mundo para outro”[1].
Por que essa loucura contemporânea surge revelando o íntimo? E o que resta do íntimo, uma vez exposto publicamente?
Reconhecer esse fenômeno atual nos permite refletir sobre o constante impulso de nossa sociedade para homogeneizar os diferentes modos de aproveitar os assuntos. Devemos responder ao imperativo: “seja feliz como é”, como se não fosse sinônimo de não existir. Então descobrimos que o que é exibido, na realidade, são apenas fragmentos pobres (fotos, mensagens, breves comentários), que se compartilham nessa cena pública efêmera.
Gérard Wajcman consegue definir as condições de possibilidade desse núcleo subjetivo, que ele chama de “O íntimo”, e salienta que este seria determinado por uma história e uma estrutura. O íntimo é um lugar onde o sujeito pode estar e sentir-se fora do olhar do outro.
A condição do íntimo está na possibilidade de o sujeito escapar do poder do outro onipresente. (…) A possibilidade do oculto não é simplesmente uma conquista, é uma condição do sujeito: só há sujeito se não pode ser visto. A sombra é o lugar do sujeito[2].

Imagem: Removed, do fotógrafo Eric Pickersgill
Essa reflexão nos aproxima da psicanálise, arte e política. Confirmamos que existe outra cena em que a pessoa não se reconhece mesmo. Outra intimidade estranha que Jacques Lacan nomeou pela primeira vez com o termo Extimidade[3]. Com extimidade, refere-se àquilo que nos perturba e nos angustia, porque intuímos que tem algo a ver conosco de qualquer maneira e que requer de outros parceiros, uma vez que se trata de segredos, às vezes, para nós mesmos. Aqui o íntimo se apresenta para nós como estrangeio e, no entanto, tão familiar. Uma imagem vale mais que mil palavras?
Vinheta clínica: F. tem 27 anos. Aos 14 anos, sua mãe morre e, ao mesmo tempo, o pai o abandona, deixando-o aos cuidados de seus quatro irmãos. Todos vivem em situação de extrema vulnerabilidade econômica e social. Nesse contexto, F. decide entrar em um programa de contenção social: um workshop de fotografia e promoção de arte. Este espaço consegue ser um laço social para ele aprender uma forma de arte e se tornar, com os anos, mais um professor da equipe. Hoje, F. é fotógrafo, faz mostras na Europa e em Nova York, com grande reconhecimento do público especializado.
Por seu trabalho, ele recebe diferentes contribuições financeiras e bolsas de estudo de organizações internacionais. Sua exposição mais famosa tem como eixo central imagens fotográficas de fragmentos do corpo de sua mãe sem vida. Seu trabalho gira em torno do silêncio em que sua mãe o deixou.
Nas primeiras entrevistas, F. não consegue falar, é impossível transmitir com suas palavras o que acontece com ele. Ao localizar essa limitação, F. começa a trazer às sessões uma série de desenhos feitos à mão, todos com extremo realismo. Neles, o protagonista é sempre ele: “ele tendo relações sexuais com uma mulher desconhecida”, “ele de pé, na beira de um prédio, prestes a cair no abismo”, “ele bêbado, lutando com golpes de punho” etc. Em seus desenhos, sempre aparece o mesmo objeto: uma garrafa de cerveja. Aponto esse detalhe singular que aparentemente era do que ele não poderia se separar e começar a falar sobre seu relacionamento com o objeto tóxico (drogas, álcool).
Depois de várias entrevistas, ele traz um autorretrato, uma fotografia que fez em frente a um espelho, na solidão do seu quarto. Ele diz: “este sou eu morto”, “eu sou Eu depois de cometer suicídio”. Na foto, pode se ver outro detalhe significativo: seus olhos estão para trás, como se fossem brancos. Isso, de alguma forma, elide seu olhar.
Algum tempo depois, surge um sonho: ele está ajoelhado em frente ao túmulo de sua mãe e, naquele momento, surge do fundo uma figura feminina bela, que o abraça, transmitindo-lhe paz. A imagem desvanece e ele, em desespero para recuperá-la, começa a cavar com as mãos a terra, sem parar, e diz: “Eu podia sentir nos meus dedos, nas minhas unhas, uma sensação que parecia real”. Quando acorda, ele corre para uma gaveta em seu quarto, em busca dos restos de sua mãe que ainda guarda, ele precisa verificar que era apenas um sonho.
Gérard Wajcman diz: “o sujeito pode decidir abrir sua intimidade, falar sobre isso ou expô-la. A psicanálise responde a esse desejo; arte e literatura também são lugares para o exercício dessa liberdade”[4].
A experiência de uma análise nos leva a reconhecer isso, o que faz um sintoma para cada um e, por sua vez, nos ajuda a encontrar a letra para nomear essa maneira singular de desfrutar do que é nosso.
Considero necessário visualizar a tensão entre a ideia contemporânea de vincular a intimidade ao espetáculo e o valor que damos à intimidade no quadro da cena analítica. É situando as categorias do singular e da intimidade que a psicanálise sustenta seu valor de evento ético e político. “O ser do homem não só não pode ser compreendido sem a loucura, como não seria o ser do homem se não trouxesse em si a loucura como limite de sua liberdade”[5].
Referências:
ECO, U. A perda de privacidade. In: A passo de caranguejo, São Paulo: Difel, 2007.
LAURENT, É. O gozo sem rosto. Buenos Aires: Editorial Tres Haches, 2010.
LACAN, J. O Seminário, livro 16: De um Outro ao Outro. Buenos Aires: Paidós, 2011.
WAJCMAN, Gérard. “Elephant”. Consecuencias, Revista Digital de Psicoanalisis, Arte y Pensamiento, n. 6, Buenos Aires, julho 2011. Disponível em: <http://www.revconsecuencias.com.ar/ediciones/006/template.php?file=arts/variaciones/Elephant.html>.