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ENTRE(a)VISTA com Renata Soutomaior 

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ENTRE(a)VISTA com Renata Soutomaior 

xxiiijornada 21 de agosto de 2018 in Boletim Persiana Indiscreta 0

Rogério Barros – Associado do IPB-BA

A arte dos cenógrafos e figurinistas é “dar vivência”, seja no teatro, no cinema ou na TV. Vida que escapa à cena, caso não possa ser bem ambientada ou vestida. Mais além do campo visual, há algo de íntimo que esforça em se transmitir, e isso é o que faz da obra audiovisual um meio de comunicação. Há uma vida que passa da cena ao olhar, objeto que captura o nosso desejo, nos inquietando.

Tornar as cenas vivas e, por isso, factíveis, é um dos objetivos do trabalho de Renata Soutomaior, Diretora de Arte e Figurinista que realizou seu primeiro trabalho com audiovisual em 2005 no DOCTV Mário Gusmão, o anjo negro da Bahia. Desde então, vem somando sua experiência com produção, área em que atua desde 1999 como artista visual e na qual já participou desde diversas exposições coletivas ao desenvolvimento de trabalhos como figurinista, maquiadora, produtora de moda e diretora de arte. É com ela que, nesta edição, batemos um papo.

Persiana Indiscreta – Criar cenários, figurinos e personagens, é, em alguma medida, criar intimidade. Qual a relação entre a sua atuação profissional e a produção ou desvelamento de intimidades?

Uma parte muito importante do processo de criação e construção de cenários e figurinos para o audiovisual, em especial para cinema, é algo que ocorre após as paredes pintadas, o tecido cortado e costurado, que é tornar tudo isso factível. Tudo vai parecer falso aos olhos do espectador se essa etapa não for bem realizada, que é a de “dar vivência” às coisas: consiste basicamente em imaginar: como aquele corpo que ocupa aquela jaqueta fuma? Ele sente muito frio? Como ele anda? Onde aquele tecido teria se desgastado naturalmente no uso particular daquele personagem? Do mesmo modo, o cenário, toda casa, toda peça de roupa, tudo que é habitado, tem desgaste, tem ‘sujeira’, defeitos, falhas específicas daquele uso, daquela narrativa.

Algo que não tem falha, defeito, não tem vida, não é habitado. O processo de construção desses espaços é o de permitir o mergulho naquele universo para poder apresentar, ali no detalhe, cada elemento narrativo, cada bolso puído pela ansiedade de quem constantemente busca ali um cigarro, cada marca de cadeira arrastada por descuido ou raiva naquela parede, como é ocupado cada corpo, cada história, cada espaço, e é o que permite que, em alguns segundos de exibição daquela imagem, você absorva e conheça tanto daquela narrativa, porque quando você se permite mostrar tão de perto, é quando você cria intimidade.

Para além de estudo de cor e forma, direção de arte (que inclui a cenografia, o figurino etc.) é um exercício constante de ocupar um corpo para narrar uma história, e que vem necessariamente da observação de pessoas reais – como é ocupado o corpo de uma mulher, como eu escolho ocupar (ou não) meu próprio corpo, e como isso narra a minha história e que elementos disso são fundamentais para traduzir tudo isso em cada segundo de imagem para que essa história seja contada e enriquecida sem a necessidade de legendas.

Persiana Indiscreta – No tempo dos realities shows e dos influenciadores digitais, podemos ainda dizer que temos alguma intimidade?

São dois lados de uma moeda: existe algo quando você repete muito uma informação: ela tende a se tornar sem importância. Se eu, de repente, passo a mostrar tanto de mim, tão cotidianamente, o que acontece é uma falsa noção de proximidade entre a minha pessoa e o outro, uma vez que o outro tem tanta informação sobre o que faço, gosto, sinto, mas tão repetida, tão over, que passa a ser banalizado. Também se perde um ponto fundamental da intimidade que é a troca, o diálogo. Eu sei tudo da vida do Neymar, mas ele não sabe nada da minha. Não há intimidade, há consumo.

Mas ainda assim eu não diria que não existe intimidade: no meio de tanta exposição “vazia” o outro lado dessa moeda é a possibilidade de uma troca muito maior por grupos que talvez não ocupem o lugar de destaque nessas mídias. Daí, quando você trata de visibilidade e da possibilidade de me enxergar em alguém que também se reconhece em mim, aí há, sim, diálogo, troca e, por consequência, intimidade. Essa possibilidade de conexão profunda, real, que os tempos de likes e afins nos trazem, é imensa.

Persiana Indiscreta – Você percebe efeitos ou mudanças dessa lógica do “tudo ver” na criação artística, seja no cinema, no teatro ou na televisão? Podemos dizer que há mudanças nas construções das cenas, nas produções culturais?

O boom de acesso a câmeras de qualidades diversas gerou uma série de novos produtos audiovisuais, do reality show com três câmeras em cada cômodo, ao youtuber que cria seus vídeos com uma câmera precária de celular, videoarte desenvolvido em aldeias, videoclipes revolucionários realizados por comunidades, documentários, um novo jornalismo vindo de mídias alternativas etc. As novas tecnologias deixaram as câmeras mais leves, o que mudou por completo os movimentos e enquadramentos da imagem, em uma diversidade absurda, porque você torna opcional o conhecimento técnico para construção desse produto e abre espaço para experimentalismos e processos mais intuitivos. Outra consequência desse boom é uma mudança de linguagem e criação de uma cultura de superexposição de imagem pessoal, desde os anos 2000, com a câmera fotográfica digital e os fotologs e afins. Uma democratização de um status de celebridade que antes estava restrito a quem tivesse acesso a uma determinada estrutura, cara, glamourizada, e que passa a ser acessível, 12x sem juros na loja do seu bairro.

Tudo isso transforma a linguagem e os processos de criação artística, em especial o audiovisual. As câmeras tendem a mostrar imagens mais abertas, se afastam do personagem. Elas querem mostrar tudo o que acontece (ou apenas não tem zoom, no caso de câmeras mais precárias). O “plano detalhe”, que é a imagem da câmera focada em um gesto, um olhar, é engolido pelo excesso de informação de uma grande angular fixa. Não há intimidade, há excesso de informação de objetos, de cena, de gestos, de texto, e embora pareça que você está mais perto, conhecer melhor aqueles personagens, o que ocorre é o oposto, pois aquelas informações se perdem sem o direcionamento do olhar.

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